Olá queridos,

Ontem, à convite da querida Morango Camargo, participei de uma palestra no Senac aqui em Florianópolis onde abordamos alguns temas super interessantes relacionados à imagem, tendências, varejo, entre outros. Com a participação de pessoas das mais diversas áreas, da engenharia têxtil até estudantes e professores, pudemos fazer um grande bate-papo sobre moda em diferentes pontos de vista.

Durante a minha apresentação, acabei falando de um assunto que eu gosto muito, que é a relação direta da moda com o desejo das pessoas, e de como esse desejo é totalmente diferente de região para região, de país para país.

No curso do Marangoni tivemos uma aula onde fizemos um paralelo entre os desejos de cada capital de moda do mundo usando como referência a revista Vogue de cada lugar (Paris, Londres, Milão e NY). Foi uma das aulas mais interessantes que tive pois pudemos ver que, por mais que a marca Vogue tenha seus conceitos e público-alvo universais, a abordagem dos temas, a organização da revista, os editoriais e tudo o mais é voltado para o desejo específico de cada povo. O que é “fashion” em um lugar, não necessáriamente é “fashion” em outro.

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Em Londres, por exemplo, temos um clima mais excêntrico, recheado de criatividade, de extremos, de misturas. A rebelião do rock’n’roll e do movimento punk convivem bem com a aristocracia e a cultura conservadora inglesa, o abstrato é misturado à poses em P&B, e assim por diante. O clima da revista é super conceitual e quem lê e gosta da revista são pessoas que entendem e valorizam a moda de uma forma mais “open-minded”.

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Já Paris é a casa da haute couture e valoriza a criatividade em uma perspectiva mais artística e respeitosa. A poesia e a história são contadas com mais leveza, através da beleza, da sensualidade e do romantismo. E é o que sentimos quando estamos em Paris, não é? Lá, respiramos arte, elegância e estilo. As francesas valorizam isso mais do que tudo, este é o desejo do povo francês.

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Em Milão, a palavra chave é o glamour. As mulheres, em seu esteriótipo, se montam  da cabeça aos pés e estão com o look completo, impecáveis, todos os dias. Os homens também!

Em Milão, o valor de uma roupa é a qualidade das peças clássicas, de valorizar os detalhes, a feminilidade e a paixão. Os editoriais da Vogue italiana são sempre per-fei-tos, com os top-fotógrafos e o melhor do luxo de todo o mundo.

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E por fim, Nova Iorque, sendo a capital da moda dos EUA, reflete o desejo do país mais capitalista do mundo: a comercialidade. As roupas lá devem ser usáveis, prontas para usar, reais e simples. E a revista de Anna Wintour reflete isso em suas capas cheias de celebridades, em seus milhares de anúncios, sessões de peças & preços e incetivo de consumo, mais do que qualquer outra Vogue no mundo. A revista americana é a de maior tiragem (mais de 1 milhão de exemplares por mês) e é feita para as pessoas mais diversas, inclusive aquelas que nem gostam tanto de moda assim.

A moda deve ofertar para as pessoas aquilo que elas desejam ou, de repente, nem sabiam ainda que desejavam. E, se a moda consegue “dizer” para as pessoas o que desejar, que é o que acontece hoje, aí sim vemos o poder que isso tem.

Atualmente, como a Morango bem colocou ontem, as pessoas não compram mais por necessidade. A maioria das pessoas não precisa de mais nada em seus closets, não é mesmo? Hoje compramos para ter aquilo que desejamos, para curar uma tristeza, para pertencer, para nos diferenciarmos, para mostrar o poder que tem…enfim.

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Lá no Marangoni, depois dessa aula, fiquei pensando muito no Brasil. Nossa sociedade ainda tem muito essa necessidade de mostrar que pode. Assim como na Rússia, aqui as marcas vendem como nunca peças com logomarcas, edições limitadas e mais caras que no resto do mundo, pois os brasileiros querem poder pertencer a uma classe social, a grupos e estilos.

Todos sabem que, em uma viagemzinha a Buenos Aires, aqui do lado, já se pode comprar uma calça da Diesel por 1/5 do preço. Entretanto, a vontade de ser cliente daquela loja poderosa, de mostrar para os outros que não se importa com o preço é mais forte por aqui. E a busca por exclusividade e de ter algo único, aqui e no mundo, supera qualquer crise econômica que apareça pela frente.

Uma coisa que eu aprendi neste meio tempo é que os profissionais da moda (e todos os outros que lidam com o consumo), sem julgar, devem sim se adaptar a esses desejos, e respeitá-los.