“Aconteceu este ano a primeira semana de moda do Paquistão, com guardas armados, cães farejadores e especialistas em explosivos à tira colo. A revista Marie Claire inglesa falou com as pessoas que arriscaram suas vidas para dar força às mulheres que vivem com medo constante do terrorismo do Taliban, em uma sociedade já extremamente patriarcal.”

É o primeiro dia da semana de moda do Paquistão e o sentimento de antecipação no backstage é palpável. As modelos se reúnem em frente a espelhos iluminados e os stylists mexem nas araras e vestidos. Enquanto as luzes são diminuídas e os holofotes são ensaiados na passarela do Marriot, hotel 5 estrelas em Karachi, as modelos recebem os últimos ajustes.

Isto poderia ser uma cena de qualquer semana de moda em Paris ou Londres, porém com os seguranças que passeiam atentos pela redondeza e os cães farejadores que circulam pelo saguão fica impossível ignorar a realidade negra que permeia o momento. Este evento está sendo realizado em uma das épocas mais turbulentas na história do país que é considerado o mais perigoso do mundo.

O evento de quatro dias, que já havia sido adiado devido à preocupações com segurança, tinha como objetivo prover um palco político para as mulheres do Paquistão, além de dar um empurrão na sedenta indústria da moda do país, que já gera mais de 7 bilhões de libras esterlinas por ano. Segundo as modelos, o evento foi um “tapa na cara” simbólico na visão Taliban da sociedade.

O Taliban governou o Afegasnistão de 1996 até 2001, quando foram vencidos. Desde então eles se reagruparam e emergiram como um movimento em guerra com os governos do Afeganistão e Paquistão, criando uma onda de ataques terroristas contra os os civís paquistaneses.
Neste contexto, onde mulheres são proibidas de mostrar a pele e ser modelo é estar no mesmo nível das prostitutas, o risco que as modelos correm é mais alto do que qualquer outro. “Esta é a nossa maneira de mostrar uma imagem diferente do Paquistão para o resto do mundo,” diz a principal modelo paquistanesa, Mehreen Syed, de 24 anos. “Também se trata em prover empregos e segurança financeira para as mulheres. Claro que há perigo. Temos seguranças armados para protegê-las e os contratamos para que os visitantes se sintam à vontade para nos prestigiar. Mas continuaremos com os desfiles, não só porque eles trazem esperança e voz às mulheres do Paquistão.”

Ayesha Tammy Haq, a organizadora-chefe da semana de moda do Paquistão, concorda que o evento é um passo enorme para as mulheres do Paquistão, que são, em sua maioria, confinadas às suas casas e obrigadas a se cobrir com echarpes e burcas. “Este é nosso gesto de desafio. Existe um problema sério de militância e contestação política, porém isso não quer dizer que o país deve ficar parado. Conseguimos realizar o evento colocando nossos corações e almas em conjunto com este ideal.”

Karachi é a maior cidade do Paquistão. Mais da metade de seus 12 milhões de habitantes vive em favelas, porém uma coleção de bares da moda e restaurantes nas áreas mais nobres está atraindo um público sofisticado, interessado na moda do Oeste.
É uma viagem de duas horas do noroeste – onde fica o coração da Al Qaeda e do Taliban – e tem visto menos violência, porém as ameaças estão sempre presentes.

“A primeira semana de moda de Karachi estava marcada para Outubro do ano passado, porém os organizadores tiveram que adiar devido à preocupações de segurança”, continua Alesha. “Os terroristas tinham acabado de atacar a base militar do Paquistão em Rawalpindi, matando 6 militares. Três semanas depois, os desfiles finalmente puderam ser realizados. Trabalhamos muito na surdina, não querendo chamar a atenção para o evento para não o comprometer. Foi um desafio enorme, porém um sucesso maior ainda. Mostramos ao mundo como o Paquistão realmente é – talentoso e bonito – e que nós não estamos dispostos à ficar quietos e morrer”.

Entretanto, são as modelos que mais correm riscos por estarem participando. Mehreen é um exemplo para as mulheres em um país onde a feminilidade é forçadamente escondida. Uma dos 5 filhos de uma família da classe trabalhadora com valores tradicionais, sempre quis ser modelo porém só realizou o sonho quando uma amiga a apresentou a um fotógrafo que ela levou a profissão a sério. “Depois que comecei, a maior parte de minha família parou de falar comigo”, disse ela. “Quando minha mãe viu as fotos do meu primeiro editorial com um homem, me deu um tapa na cara e me proibiu de continuar trabalhando. Porém eu sabia que tinha o dever de provar que fazer aquilo não me tornava uma mulher ruim”.

Durante os últimos 5 anos a família de Mehreen aceitou sua carreira, porém com duas restrições: desde que ela não pouse com homens e nem mostre as pernas. “Eu ainda vivo com minha família, porém por um bom tempo eles se recusaram a aceitar o dinheiro que eu ganhava como modelo. Finalmente cederam e hoje sustento minha mãe e meus irmãos financeiramente e quero que meu trabalho traga o Paquistão para um novo século onde as mulheres possam ter carreiras e fazer suas próprias escolhas“.
Este é um objetivo comum com outras modelos, como Fayezah Ansari, 25 anos. “Eu não quero ser uma supermodelo, mas sim um exemplo a ser seguido pelas mulheres em meu país”, diz ela. “Quero dar a elas esperança de que podem fazer algo criativo e positivo”. Sentada em um café local, Fayezah diz que ela pode ajudar a mudar a percepção que o mundo tem de sua cultura e religião através de seu trabalho, que ela usa como uma plataforma para poder falar sobre outras questões sociais que afetam as mulheres paquistanesas. “Tenho muita sorte por vir de uma família de classe alta, porém quero alcançar também as mulheres que não tiveram as mesmas oportunidades que eu”.

A modelo Tooba Siddiqui, 27 anos, reconhece que será uma batalha árdua mudar os costumes antigos de um país essencialmente patriarcal. “Os homens paquistaneses não respeitam as mulheres. Eles não acham que uma mulher possa representar os ideais culturais do Paquistão. Se uma mulher de 25 anos anda sozinha na rua por aqui, sua reputação corre um sério risco. Entretanto, se ela estiver com seu irmão de 5 anos de idade, ela está a salvo pois ele é um menino”.

Mesmo nesta situação onde as mulheres paquistanesas estão tendo que lutar contra a supremacia masculina de uma maneira que as pessoas do ocidente mal podem imaginar, além de enfrentarem a constante ameaça de terror, Rizwan Beyg está otimista quanto ao futuro.

Rizwan é um designer paquistanês mundialmente famoso, cujas criações foram usadas pela princesa Diana e que emprega mais de 700 mulheres das áreas rurais, as mais afetadas pelas guerras. Ele as paga para fazer os bordados tradicionais para que elas possam ter condições de mandar seus filhos para a escola. “A semana de moda é algo que este país nunca viu e representa muito mais do que qualquer outra semana de moda no mundo, pois é um símbolo de esperança”, diz ele. “Com meu trabalho proporciono empregos e educação. Estou lutando com o extremismo à minha maneira”.

Consagrada com prêmios internacionais, a jornalista Christina Lamb trabalha do Paquistão há mais de 20 anos e acredita que este evento é o início de mudanças muito bem-vindas. “Sempre houve mulheres fortes lutando contra o terrorismo e o domínio dos homens no Paquistão, porém nunca havia visto algo tão corajoso como isto. Desde que o Taliban chegou, as mulheres ficaram mais medrosas e oprimidas, então é um grande passo termos mulheres belamente vestidas desfilando para a mídia de todo o mundo. Elas estão falando por todas as mulheres paquistanesas, dizendo: ‘Nós não gostamos de ser tratadas assim e não precisamos aguentar mais isto’. Somente o tempo poderá dizer quais serão os efeitos, porém gosto de acreditar que este é o início de algo totalmente novo e grandioso”.

Artigo publicado na revista Marie Claire inglesa número 263, Julho de 2010.
Texto de Puk Damsgard e tradução livre por Roberta Carlucci.
Fotos: reprodução.